barbara heliodora
o globo | 09:32h | 27.jan.2010
Tchekhov comovente e apaixonante
A vasta correspondência trocada entre Anton Tchekhov e Olga Knipper — como eles dizem, primeiro amigos, depois amantes e finalmente marido e mulher, é em si, belíssima e comovente. Pelas cartas podemos ter uma ideia do que passou, em seus últimos anos de vida, um gênio literário que era médico e, por isso mesmo, sabia que sua tuberculose não tinha cura, e que lhe restava cada vez menos tempo para criar sua obra dramática e viver o imenso amor que lhe chegou tarde.
Emoção contida nas cartas está na peça
Com a preciosa correspondência em mãos, a americana Carol Rocamara tinha excepcional material para elaborar sua peça, cujo título “Tomo suas mãos nas minhas” era a conclusão permanente usada por Tchekhov. O material é muito bem organizado, no sentido de dar vida ao processo paralelo da concretização do amor e da morte anunciada. Tchekhov conheceu Olga quando o Teatro de Arte de Moscou estava montando “A gaivota”, ocasião em que o escritor já estava se mudando para Yalta, no sul, por ordens médicas. Boa parte da emoção do texto vem da cobertura feita pelas cartas do apaixonado e doloroso processo das três grandes últimas peças, “Tio Vânia”, “As três irmãs” e “O cerejal”, cada uma produto de esforço maior, dado o agravamento da doença, mas mesmo assim cada uma delas superando a anterior em riqueza de observação do comportamento humano, cada uma retratando com mais acuidade a decadência e a corrupção da amada Rússia.
Encenação é primorosa; direção, minuciosa
A encenação no Teatro do Leblon é primorosa. Fernando Mello da Costa e Rostand Albuquerque criam a magia do teatro não pelo palco, mas pelos misteriosos recantos das coxias, do mundo que permite que a magia se mostre. Os figurinos de Kika Lopes são simples mas precisos, com a bonita luz de Maneco Quinderé e a boa trilha de Alexandre Pereira. Não são os holofotes, mas o frio, a doença, a distância que formam o cenário da vida real.
A direção de Leila Hipólito (que também assina a boa tradução) investiga a fundo a riqueza de pensamento e emoção que o texto contém, leva em conta a época, seus hábitos, seus preconceitos, as circunstâncias em que foram passados esses gloriosos seis anos que os dois tiveram para si.
Miriam Freeland, dividida entre o teatro e o amor, fica mais autência quando é Olga, mas busca suas personagens com clareza, enquanto Roberto Bomtempo tem um trabalho excepcionalmente bem dosado para englobar o amor, a doença, a família e sua gigantesca obra teatral.
“Tomo suas mãos nas minhas” é um espetáculo comovente e apaixonante, realizado com toda a dedicação que Tchekhov merece.